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Rogéria Ramos


A vida acontece fora das redes



Vivemos em um tempo em que quase tudo passa pelas telas. Informações, anúncios, opiniões, imagens, narrativas. A política também. A cidade aparece em vídeos, fotos, textos curtos, registros diários do que está sendo feito. Isso faz parte do nosso tempo e não pode ser ignorado. Comunicação é importante. Propaganda existe porque há quem precise mostrar o que faz. Mas a vida - a vida de verdade - acontece fora das redes.

Ela acontece na fila do posto de saúde, na rua esburacada, no bairro sem praça, no ônibus atrasado, na casa onde falta água e luz, no comércio que tenta resistir, na mãe que precisa de creche, no idoso que precisa ser ouvido, no jovem que busca oportunidade. Ela acontece no cotidiano silencioso, que raramente vira postagem. Propaganda mostra feitos. A política, porém, precisa lidar com necessidades.

Mostrar ações é legítimo. Tornar visível o que é público é necessário. O problema começa quando a comunicação passa a ocupar o espaço que deveria ser da escuta. Quando falar se torna mais frequente do que ouvir. Quando a política começa a responder melhor ao algoritmo do que às pessoas.

Redes sociais são ótimas para anunciar, mas são frágeis para acolher. Elas não escutam o tom de voz, não percebem o cansaço, não captam o medo, a insegurança ou a urgência de quem bate à porta do poder público sem saber por onde começar. A vida real não cabe inteira em um comentário, nem se resolve em uma resposta automática.

Uma cidade não é feita apenas de obras, projetos e números. Ela é feita de gente. E gente precisa ser vista, mas também ouvida. Precisa ser considerada não só quando aparece em dados ou imagens, mas quando chega com demandas, dúvidas, críticas e expectativas. Quando a política se concentra demais em mostrar, corre o risco de se afastar. Não por falta de intenção, mas por excesso de mediação. Entre o gestor e o cidadão surge a tela. Entre o problema e a solução surge a narrativa. E, muitas vezes, o essencial fica pelo caminho.

Escutar dá trabalho. Acolher exige tempo. Construir confiança não rende curtidas imediatas. Mas é isso que sustenta uma cidade no longo prazo. Propaganda informa. Escuta transforma. Uma política madura entende que comunicar é parte do processo, não o processo inteiro. Que mostrar feitos não substitui estar presente. Que a população não quer apenas saber o que foi feito; quer participar, ser considerada, sentir que sua realidade importa.

A vida que pulsa fora das redes é complexa, contraditória, imperfeita. Ela não é editada, não tem filtro, não cabe em roteiro. E exatamente por isso precisa ser levada a sério. É nela que a política encontra seu sentido mais profundo.

Talvez um dos grandes desafios do nosso tempo seja reequilibrar essa balança: usar a comunicação para informar, sim, mas sem esquecer que governar e legislar exigem presença, diálogo e sensibilidade. Exigem caminhar pelos bairros, ouvir sem pressa, acolher sem julgamento, responder com responsabilidade.

A vida não acontece nas redes. Ela acontece nas ruas, nas casas, nos encontros e também nas ausências. E talvez seja justamente ali, fora das telas, que a política precise reaprender a estar. Não para aparecer, mas para compreender. Não apenas para mostrar feitos, mas para construir caminhos junto com quem vive a cidade todos os dias.

Escutar é um ato político.

Acolher é uma escolha.

E é dessa escolha que nasce a confiança que nenhuma propaganda constrói sozinha.

 



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Escrito por Rogéria Ramos, no dia 19/01/2026

Rogéria Ramos


Rogéria Ramos, presidente da Associação dos Moradores Unidos do Bairro Santo Agostinho E-mail [email protected] Instagram @rogeriaramosss


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