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Rogéria Ramos


Quando o essencial falta



Às vésperas do Natal, o mundo insiste em nos lembrar de palavras bonitas: amor, esperança, renovação. Elas aparecem nas vitrines, nos discursos e nas fotos cuidadosamente escolhidas. Mas existe uma diferença enorme entre repetir valores e praticá-los quando ninguém está aplaudindo.

A história também gosta de símbolos, registra feitos inéditos, celebra datas, destaca ocupações de espaços antes negados. Isso importa. Representatividade importa. Mas ela não se sustenta sozinha, não se mantém apenas pela presença física nem pelo ineditismo do cargo. Sem humanidade, vira apenas forma.

Antes de qualquer rótulo — homem ou mulher, preto ou branco — existe algo que deveria ser inegociável: a capacidade de reconhecer o outro, de ouvir sem reagir com dureza, de lidar com o contraditório sem transformar divergência em afronta pessoal.

O poder, quando exercido sem essa base, costuma revelar um traço incômodo: ele se fecha. E, quando se fecha, deixa de representar. Passa a conduzir, impor, controlar. A política, então, perde o que deveria ter de mais essencial — o vínculo com a vida real.

A vida real não frequenta solenidades, ela está nas ruas esburacadas, nos serviços que não chegam, nas pessoas que esperam e cansam. Representar alguém exige mais do que discurso: exige convivência com limites, com críticas e com desconfortos que não cabem em cerimônias.

O Natal fala de nascimento, mas nenhum nascimento verdadeiro acontece sem humildade, sem silêncio, sem disposição para aprender. Não nasce humanidade onde falta escuta, não há renovação onde o poder não admite ser questionado.Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja acreditar que ocupar um espaço basta. Não basta. A história registra cargos, mas o cotidiano revela posturas. E são elas que permanecem quando os holofotes se apagam.

Não é o sexo, a cor, a orientação ou o título que definem a grandeza de alguém. É o quanto essa pessoa consegue permanecer humana quando tem poder nas mãos, o quanto consegue não endurecer, o quanto consegue lembrar que liderança não é imposição — é responsabilidade.

Que este tempo de Natal nos provoque menos a celebrar aparências e mais a revisar atitudes; menos a exaltar símbolos e mais a cuidar do essencial. Porque, quando o ser humano se torna mais humano, o resto perde importância.

E talvez seja exatamente isso que ainda esteja faltando nascer.



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Escrito por Rogéria Ramos, no dia 24/12/2025

Rogéria Ramos


Rogéria Ramos, presidente da Associação dos Moradores Unidos do Bairro Santo Agostinho E-mail [email protected] Instagram @rogeriaramosss


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