Foto: Divulgação/ Circuito Villas e Fazendas
A comida dos mineiros sempre foi sinônimo de encontro, celebração e partilha. Seja nas festas da roça, regadas a cachaça, com porco assado e feijão tutu, ou nos almoços em família, a culinária de Minas carrega histórias e afetos. Em 2026, esse patrimônio ganha ainda mais destaque com a realização do maior festival gastronômico do interior de Minas Gerais: o Sabores das Villas. O evento acontece em 13 cidades, organizado pelo Circuito Villas e Fazendas de Minas, valorizando a cultura regional por meio de temperos, aromas e receitas tradicionais. A proposta também reforça a sustentabilidade, com o uso de ingredientes locais e a produção feita por famílias que preservam costumes e tradições.
Mais do que gastronomia, o Sabores das Villas é um encontro de cultura, música e valorização das cidades e dos antigos distritos de Queluz. E é justamente nesse contexto que se destaca a história da culinária mineira, formada pela mistura de influências portuguesa, indígena e africana.
Percorrendo a região das nascentes do Rio Doce, no Alto Vale do Piranga — que abrange cidades entre Senhora dos Remédios e Ponte Nova, com destaque para Piranga — é possível entender as origens dessa tradição. No século XVIII, com a escassez de ouro, a região passou a produzir alimentos que eram vendidos a alto valor para as áreas mineradoras. Nesse período, marcado por extrema pobreza, os hábitos alimentares eram simples e semelhantes em diversas partes das Minas.
Segundo o pesquisador Eduardo Frieiro, em seu livro Angu, Feijão e Couve, as refeições muitas vezes se resumiam a fubá cozido em água ou canjiquinha com verduras disponíveis. Com o tempo, esses pratos foram sendo enriquecidos com ingredientes como linguiça e costelinha.
Na época, predominavam o cultivo de mandioca, milho e feijão. Diferentemente dos paulistas, que já contavam com maior diversidade alimentar, nas Minas do Ouro o consumo de carne ainda era limitado. Como destaca Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, a fartura só começa a aparecer no século XIX, com a introdução do gado leiteiro e da cana-de-açúcar.
Com o passar dos anos, a culinária mineira foi incorporando novos sabores. Pratos como o arroz com pato, de origem portuguesa, e a galinhada, influenciada pela paella espanhola, passaram a fazer parte do cardápio. A feijoada, por sua vez, surge da mistura entre ingredientes disponíveis e a criatividade dos escravizados, que utilizavam partes do porco descartadas, combinadas com o feijão.
A diversidade de hortaliças também contribuiu para enriquecer a alimentação, enquanto costumes e crenças, como a separação entre o consumo de leite e frutas, refletiam questões econômicas da época.Assim, a culinária mineira se consolidou como resultado da fusão entre culturas africana, indígena e portuguesa. Ingredientes como o quiabo, o inhame e o cuscuz — este último de herança moura — ajudaram a formar a identidade dos pratos típicos.
No século XIX e início do século XX, o café passou a integrar o cotidiano das famílias, acompanhado da rapadura e das quitandas feitas no fogão a lenha. Em sua obra Fogão de Lenha, Dona Maria Stella Libânio Christo retrata a fartura e a riqueza dos banquetes mineiros, desde a antiga Vila Rica até Belo Horizonte.
O agente cultural de Santana dos Montes e pesquisador das histórias e encantos da antiga Queluz de Minas, José Geraldo, destaca que a culinária é um dos pilares da identidade regional. “A nossa comida carrega memória, tradição e pertencimento. Cada receita tem uma história que atravessa gerações e revela muito sobre o nosso povo”, afirma.
Segundo ele, eventos como o Sabores das Villas cumprem um papel essencial na preservação desses saberes. “Quando valorizamos os ingredientes locais e o modo de fazer das famílias, estamos mantendo viva uma herança que não pode se perder”, ressalta. Hoje, essa herança permanece viva nas receitas de família e nos festivais que celebram a cultura local, como o Sabores das Villas, que convida o público a revisitar sabores, histórias e tradições que atravessam gerações.
Confira abaixo a programação do festival:
02/05 – Senhora de Oliveira
03/05 – Rio Espera
08 e 09/05 – Piranga
09/05 – Caranaíba
16/05 – Cristiano Otoni
17/05 – Catas Altas da Noruega
24/05 – Santana dos Montes
30/05 – Capela Nova
31/05 – Itaverava
06/06 – Conselheiro Lafaiete
07/06 – Etapa Regional Conselheiro Lafaiete
Por José Geraldo
Agente cultural de Santana dos Montes e pesquisador das histórias e encantos da antiga Queluz de Minas
Colaboraram: Camila Lima e Sidnéia Martins ( Circuito Villas e Fazendas)
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Postado por Rafaela Melo, no dia 30/04/2026 - 15:00