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Foto: Divulgação



Há em mim um vazio tão intenso

que ressoa — e fere os ouvidos.
Como pode o nada
doer como se fosse matéria?

Carrego lembranças imprecisas, etéreas,
quase sonhos — ou seriam?
Quisera que fossem apenas isso: sonhos.
Mas há um peso nelas. Há um eco.

Sou, talvez, dois terços ausência,
suspensa em algum ponto fora do real.
O que resta de mim cumpre funções:
age, trabalha, sustenta, entrega.
E ainda assim — tão pouco.

Há tanto em mim,
mas o vazio tem sido vasto demais.
E assumo: há culpa no que transborda silêncio.

Caminho por uma estrada turva,
sem placas, sem direção,
sem promessa de chegada.
É um percurso deserto
e, ao mesmo tempo, saturado de contradições.

Talvez eu já não devesse estar aqui.
Interditada de mim.

E então, de súbito, surge o impulso: correr.
Mas para onde corre quem não sabe onde está?

“Acalma-te”, sussurra algo. “Há um propósito.”
Há?

A fé vacila quando o sentido se esconde.
Que egoísmo, dizem. “Você tem tanto.”
Mas o que é o tanto para quem se sente oca?

Nunca foi o acúmulo o que me movia.
O vazio — dizem — é humano. Então aquieta-te. Silencia.

Mas o deserto, ainda que árido,
guarda vida invisível sob a areia.
E, ainda assim, dói.
Dói fundo.

Sem forma, sem nome,
um vazio povoado de perguntas,
de imperfeições,
de uma estranha sensação de inutilidade.

Inventamos sentidos,
costuramos razões — remendos frágeis
para não encarar o abismo.

O padrão sufoca o indizível.
Impõe, julga, molda, aliena.

Seria o mundo caótico?
Ou somos nós desalinhados com ele?

Nasci do vazio —
do silêncio fecundo de um útero —
e, ainda assim, luto contra ele.

Contradição: minha natureza e meu incômodo.
Quem sou eu, afinal?

Existir talvez seja isso:
uma construção sem molde,
uma recusa silenciosa de caber.

“Você não nasceu para ser contida”,
sussurro a mim mesma — como quem tenta acreditar.

E então compreendo:
o vazio, em meio à multidão,
é mais ruidoso que qualquer excesso de vozes.

Ele não tem fundo.
Ele ocupa, pesa, aprisiona.

Mas há uma brecha.
Quando transborda em palavras,
já não é mais oco.

Ah, as palavras...
Elas me encontram quando me perco.
São abrigo, confissão, cura provisória.
Minha lucidez escondida em cada sílaba.

E, assim — entre o caos e o sentido —
eu me reconstruo em letras.

Escrever não preenche — mas alivia.
É anestesia breve. É sobrevivência.

A palavra é meu remédio.
E a dose? Infinita.

Escrevo até existir de novo.
E, por instantes, isso basta.

Sim, é vício. E não — não desejo cura.
Enquanto houver palavra, há vida.
E, enquanto escrevo, sou inteira.

Paz e bem.
Por Lívia Baêta




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Postado por Rafaela Melo, no dia 29/04/2026 - 09:43


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