Foto: Anni Sieglitz/ Agência Minas
Lucas Couto, de 4 anos, ficou quase 60 dias internado após cair de costas em panela com óleo quente em casa
O período de férias escolares, marcado por descanso e lazer para crianças e adolescentes, exige atenção redobrada de pais e responsáveis. Dados do DataSus revelam que quase 23% das mortes de crianças de 0 a 14 anos causadas por quedas, queimaduras e afogamentos no Brasil ocorrem nos meses de dezembro e janeiro, justamente quando os estudantes passam mais tempo em casa.
A maior permanência no ambiente doméstico, aliada à agitação natural das crianças fora da rotina escolar, contribui para o aumento dos acidentes. Segundo o gerente médico do Hospital João XXIII, Rodrigo Muzzi, esse cenário se repete todos os anos. “Durante as férias, as crianças ficam mais inquietas, buscam brincadeiras mais intensas e, muitas vezes, não contam com a mesma supervisão constante que existe na escola”, explica.
Outro fator que influencia é a diferença entre o período de férias dos filhos e o dos pais ou responsáveis. Em muitos casos, as crianças ficam sob os cuidados de parentes mais idosos, que nem sempre conseguem acompanhar o ritmo delas. Além disso, a própria estrutura das residências — com escadas, desníveis, janelas sem proteção e dois pavimentos — amplia os riscos.
Referência em atendimentos de média e alta complexidade, o Hospital João XXIII registra como ocorrência mais frequente a ingestão ou introdução de objetos no corpo, como moedas. Em 2023, foram 2.009 atendimentos de crianças de 0 a 11 anos com esse perfil. Já em 2024, o número chegou a 1.907 casos, mantendo esse tipo de acidente no topo do ranking. Logo em seguida aparecem as quedas, que somam 57,6% de todos os atendimentos registrados pela unidade nos últimos dois anos, incluindo quedas da própria altura, de camas, sofás, escadas e outros níveis.
Apesar da alta incidência de quedas, as queimaduras preocupam ainda mais os profissionais de saúde. Somente em 2024, mais de 9 mil crianças foram internadas no país por esse tipo de acidente. Em 2025, até o mês de outubro, o número já alcançava 7.772 internações, conforme levantamento feito a partir de dados do DataSus.
As ocorrências são mais frequentes entre crianças de 1 a 4 anos, faixa etária que concentra 53% dos casos de queimaduras. Um desses episódios envolveu o pequeno Lucas Couto, de 4 anos, que ficou cerca de 60 dias internado após sofrer queimaduras graves ao cair de costas em uma panela com óleo quente deixada no chão da cozinha durante um almoço em família. Ele teve queimaduras de segundo e terceiro graus no rosto, tronco, braços e mãos.
Lucas recebeu atendimento emergencial e foi transferido para o Hospital João XXIII, especializado no tratamento de queimados. “Quando as crianças passam mais tempo em casa, é comum que se aproximem de situações perigosas por curiosidade, principalmente na cozinha, onde há líquidos quentes e fogo”, destaca Rodrigo Muzzi.
Além das queimaduras, o médico chama atenção para os afogamentos, outro risco significativo nas férias. “É comum encontros em piscinas, rios e lagoas, muitas vezes sem supervisão adequada. Mesmo crianças que sabem nadar estão sujeitas a acidentes graves, que exigem socorro imediato”, alerta.
Prevenção pode evitar tragédias
Para reduzir os riscos, a prevenção é apontada como a principal estratégia. A ONG Criança Segura Brasil, que atua na prevenção de acidentes com crianças e adolescentes de até 14 anos, reúne orientações específicas por idade, tipo de acidente e ambiente.
Entre as recomendações estão a supervisão constante de adultos, atenção especial em áreas como escadas, janelas e móveis, além de cuidados rigorosos com qualquer quantidade de água, para evitar afogamentos. Na cozinha, o alerta é manter crianças afastadas de fontes de calor, líquidos quentes, eletricidade e produtos inflamáveis.
A ONG também orienta que as famílias adaptem a organização da casa para torná-la mais segura. Para isso, disponibiliza gratuitamente o livro digital “Casa Segura”, com dicas práticas para prevenção de acidentes domésticos. O material pode ser acessado no site da Criança Segura Brasil, na aba “publicações”.
Alta hospitalar marca recomeço para família
Após quase dois meses de internação e sete procedimentos cirúrgicos, Lucas recebeu alta hospitalar no dia 18 de dezembro, a tempo de passar o Natal em casa. “Quando vi meu filho sendo socorrido, fiquei sem reação”, lembra a mãe, a dona de casa Kamilla Couto. Um bombeiro que estava próximo ajudou no atendimento inicial antes da transferência para o Hospital João XXIII.
“Chegando lá, ele foi direto para a cirurgia. Ao longo do tratamento, passou por outras intervenções e foi evoluindo muito bem”, relata Kamilla. De acordo com a coordenadora de enfermagem do Centro de Tratamento de Queimados, Carolina Lima, todas as etapas ocorreram no tempo adequado, com boa resposta clínica e cicatrização satisfatória.
O processo exigiu cuidados contínuos e acompanhamento especializado. “Foi um trabalho construído passo a passo, com participação da equipe e da família. Ele seguirá em acompanhamento ambulatorial e pode precisar de novas intervenções, mas evoluiu de forma muito positiva”, afirma a profissional.
Em casa, a expectativa agora é de retomada gradual da rotina. “Passar o Natal juntos foi um presente inesperado. A recuperação dele foi surpreendente, e este será, sem dúvida, o Natal mais especial das nossas vidas”, emociona-se Kamilla. A alegria também tomou conta da irmã Loyce, de 6 anos, que aguardava ansiosa pela volta do irmão.
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Postado por Rafaela Melo, no dia 25/12/2025 - 13:42