Fotos: Divulgação
Em Lafaiete, algumas lojas carregam em cadernetas amareladas e notas promissórias a história de gerações inteiras. São empresas fundadas entre as décadas de 1950 e 1970 que, apesar de crises econômicas, hiperinflação, planos monetários diversos, pandemia de Covid-19 e a transição para o comércio digital, permanecem ativas. Para esses comércios, o passado faz parte de uma estratégia de sobrevivência adaptativa que faz a ponte entre o século XX e o XXI.
O setor de comércio e serviços representa cerca de 85% do Produto Interno Bruto (PIB) de Lafaiete e concentra o maior número de empregos formais do município, atraindo consumidores de toda a região. Nesse contexto, Lusitana, Casa Nº 1, Vesúvio e Bazar Esperança exemplificam um equilíbrio raro: conciliar práticas tradicionais com exigências contemporâneas, mantendo relevância, fidelidade e competitividade em mercados cada vez mais desafiadores.
Geração, experiência e credibilidade
A Lusitana foi fundada em 1º de janeiro de 1958 por Fernando Emilio Pereira, paulista que percorreu o país vendendo fardos de tecido antes de se estabelecer em Lafaiete. Luiz Fernando Baeta Pereira, sócio atual, relembra décadas de adaptação: “Enfrentamos o Plano Sarney, Plano Collor, hiperinflação, Plano Real e, mais recentemente, a pandemia de 2020 a 2022, quando o comércio físico sofreu fechamentos prolongados”.
Desde o início dos anos 1990, a Lusitana informatizou seu crediário, notas fiscais e estoque, mas manteve registros em papel
Desde o início dos anos 1990, a Lusitana informatizou seu crediário, notas fiscais e estoque, mas manteve registros em papel: cada cliente ainda possui ficha assinada, e alguns usam cheques. “A fidelidade se constrói com histórico e confiança”, afirma Luiz Fernando. Para se manter competitiva, a loja trabalha com mais de 150 marcas de qualidade, nos segmentos de social e ternos masculinos, roupas femininas, cama, mesa e banho, e recentemente acrescentou calçados masculinos.
Na Casa Nº 1, fundada em 19 de janeiro de 1959 por Newton Guimarães Peixoto, o crediário próprio também é mantido, adaptando-se às diferentes gerações de consumidores. O pai dos atuais proprietários começou com 19 anos, após aceitar a gerência de uma loja de tecidos em Lafaiete, originada a partir de saldos de um grande atacado de Belo Horizonte. “Tecidos de qualidade mediana, mas o que fez a Casa Nº 1 prosperar foi empatia e comunicação com os clientes”, relatam Flávio, Carla e Newton Jr.
Em 1969, Newton Guimarães Peixoto tornou-se sócio da empresa e expandiu o negócio, chegando a gerenciar cinco lojas e dois hotéis em Lafaiete, Congonhas e Barbacena. Hoje, a Casa Nº 1 concilia atendimento presencial e digital via WhatsApp, além de aceitar pagamento por cartão, pix ou crediário, respeitando a preferência de cada cliente. “O consumidor pode escolher onde comprar; o que o faz decidir é o diferencial; o melhor atendimento”, lembram.
Diversificação e estratégias híbridas
A Vesúvio Limitada, idealizada em 1971 por Ivo Bernardo, começou com confecções e expandiu para utilidades domésticas, brinquedos, papelaria e móveis. Kelly Cristina Bernardo, que trabalhou ao lado do pai desde o início, destaca que a empresa sobreviveu a diferentes contextos políticos e econômicos graças à persistência familiar. O crediário tradicional ainda é oferecido, embora pouco utilizado devido à inadimplência.
Kelly Cristina do Vesúvio, trabalhou ao lado do pai desde o início
Clientes antigos, alguns com mais de 40 anos de fidelidade, continuam a usar essa modalidade. A loja conta com vendedoras tradicionais, como Eva e Salva, com quase quatro décadas de experiência. “São pessoas de confiança, que conhecem os clientes e até os gostos de cada um”, ressalta Kelly Cristina. Ao mesmo tempo, a empresa investe em redes sociais e negociação estratégica de preços, combinando tradição e inovação.
Anselmo Martins Senra, hoje com 89 anos, é o dono do Bazar Esperança, mas começou com uma oficina de conserto de calçados. A loja está no mercado há 69 anos, rompendo gerações através de muita persistência, empatia, confiança e humildade no trato com a clientela. Ele foi chamado para trabalhar na loja montada por seu cunhado Almir, que atuava no ramo de calçados sob encomenda do Sr. Horácio Casarões. Anos depois, Anselmo adquiriu a parte do cunhado. Ao longo do tempo, o desafio maior foi acompanhar as oscilações do mercado financeiro e as tendências de moda para realizar compras mais acertadas.
Anselmo Martins Senra, hoje com 89 anos, é o dono do Bazar Esperança
Por muitos anos, o controle das vendas era feito em cadernetas individuais, sem necessidade de assinatura ou apresentação de documentos, apenas baseado na confiança mútua. Posteriormente, foram incorporadas notas promissórias, mantendo-se, no entanto, o princípio de um atendimento próximo e transparente. “A principal ferramenta do Bazar Esperança é oferecer um atendimento amigo, envolvente e atento, valorizando cada cliente com atenção, amor e humildade. É isso que nos permite superar gerações”, afirma Anselmo. A loja trabalha com calçados, confecções e materiais esportivos, conciliando atenção individual com estratégias de mercado contemporâneas.
Mercado em movimento
Há quem pense que resistir às mudanças é apenas uma questão de digitalizar sistemas ou modernizar operações. No entanto, essas empresas mostram que a sobrevivência depende de leitura constante do mercado, acompanhamento das expectativas dos clientes, manutenção de relações de confiança e investimento em capital humano experiente. São estabelecimentos que preservam práticas antigas e continuam relevantes, projetando-se para atender às demandas contemporâneas sem comprometer a identidade construída ao longo de décadas.
Você está lendo o maior jornal do Alto Paraopeba e um dos maiores do interior de Minas!
Leia e Assine: (31)3763-5987 | (31)98272-3383
Postado por Maria Teresa, no dia 05/10/2025 - 09:17