Nos últimos meses, algumas pessoas têm me procurado com pedidos que, à primeira vista, parecem simples, como ajuda para entender uma fila, buscar informação sobre um exame, saber quando poderá acontecer uma consulta ou descobrir a quem recorrer. Mas, quando a gente escuta com atenção, percebe que nunca é só isso. Por trás de uma colonoscopia necessária, de uma ressonância ainda sem data, de uma endoscopia aguardada, de um ultrassom que ainda não aconteceu, de uma consulta especializada que demora ou de uma cirurgia esperada há meses, existe alguém tentando seguir a vida enquanto convive com dor, medo e incerteza. Existe alguém que já perguntou, esperou, voltou, tentou compreender o caminho e, em determinado momento, procura outra pessoa, não porque queira passar na frente de alguém, mas porque já não sabe mais a quem recorrer. É isso que mais me inquieta. Uma fila pode ser necessária para organizar o acesso.
Existem critérios, prioridades, limitações, profissionais fazendo seu trabalho e uma estrutura pública que precisa atender muitas pessoas ao mesmo tempo. Ainda assim, é importante lembrar que a fila que aparece em uma planilha é vivida, do outro lado, por uma pessoa, e o tempo administrativo nem sempre tem o mesmo significado do tempo de quem sente dor. Para quem espera, cada semana pode trazer novas perguntas, será que piorou, será que ainda vai demorar, será que alguém esqueceu de mim? Talvez seja justamente aí que a participação social faça sentido, ouvindo, perguntando, buscando informação e levando aos espaços de decisão aquilo que muitas vezes fica fora dos relatórios, a angústia de quem está esperando. Participar também é ajudar a iluminar caminhos, buscar respostas e fazer com que situações individuais, quando começam a se repetir, sejam percebidas como algo que merece atenção coletiva. Porque, quando histórias diferentes revelam a mesma sensação de desamparo, a questão deixa de pertencer apenas a quem espera e passa a ser uma pergunta para toda a sociedade.
Como tornar esse caminho mais claro, mais humano e mais eficiente? Como fazer com que o cidadão confie no caminho que existe, saiba onde está, o que esperar e a quem recorrer? Eu não tenho todas as respostas, mas acredito no valor de dar voz a essas perguntas. Porque representar também é isso, perceber quando uma dor particular começa a revelar um problema coletivo e fazer com que essa realidade chegue aos lugares onde as decisões são tomadas. No fim, talvez o primeiro passo para melhorar qualquer fila seja não permitir que quem está nela se torne invisível. Ninguém deveria ser apenas mais um nome em uma fila.
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Escrito por Rogéria Ramos, no dia 25/09/2026