Colunas


Educação para o desapego



O sofrimento de muitas pessoas é gerado pelo fato de não se satisfazerem com o dinheiro que já ganham. Possuem o básico para a sobrevivência, mas não têm limites e acham que tudo é essencial. Talvez uma educação para o desapego nos ajude a diminuir esse sofrimento, nos livrando de problemas e preocupações com o dinheiro, nos dando sa­be­doria e discernimento. 

Em seu livro ?Como se preocupar menos com o dinheiro?, John Armstrong faz um paralelo interessante entre problema e preocupação. Adaptei o título e conteúdo, mas grosso modo, as ideias são do autor, de cuja obra eu transcrevo alguns parágrafos e acrescento outros. O texto completo está disponível na Folha de São Paulo, seção ?últimas notícias?.

?Problemas são urgentes. Requerem ação direta. Não consigo ver como vou pagar o seguro do meu carro. Nunca consigo saldar a dívida do cartão de crédito: é como uma corda no pescoço. Quem me dera que meu filho de 14 anos fosse para uma escola particular, porque está tendo dificuldades onde está. Mas não tenho dinheiro. Problemas com dinheiro como esses podem ser enfrentados apenas de duas maneiras. Ou você consegue ter acesso a mais dinheiro - liquidando contas, ganhando mais ou cortando gastos. Ou você fica sem alguma outra coisa.

Preocupações são sobre o que está acontecendo em sua cabeça, não apenas o que está acontecendo em sua conta bancária. Elas variam livremente ao longo do tempo: Preocupo-me por ter tomado uma péssima decisão financeira há 15 anos. Preocupo-me que meus filhos, quando forem adultos, não tenham dinheiro suficiente. Preocupações estão ligadas à imaginação e às emoções, não apenas ao que está acontecendo aqui e agora.

Portanto, encarar preocupações com dinheiro deveria ser bem diferente de lidar com problemas de dinheiro. Para encarar nossas preocupações temos de dar atenção ao padrão de pensamento (ideologia) e ao esquema de valores (cultura), em como estes estão sendo acionados em nossas existências individuais, privadas.

Em geral, conselho em relação a dinheiro tem a ver com a questão: como posso ter mais dinheiro? O conselho consiste em sugestões e instruções para aumentar a riqueza de alguém: desenvolver um portfólio de bens; arranjar um emprego com melhor salário; casar-se com alguém rico. Ele parte do princípio de que já sabemos de quanto precisamos ("Mais! Mais!") e por quê ("Você está louco?"). Porém, a pergunta "como posso ter mais dinheiro?", na teoria, deveria ser colocada apenas depois do questionamento sobre quanto dinheiro preciso e para quê.

Alternativamente, o aconselhamento financeiro pergunta: como posso viver com menos? Há muitas ideias sobre como poupar dinheiro: cortar o cartão de crédito; forçar-se a anotar todas as despesas; diminuir o aquecimento central e vestir uma blusa a mais em casa; juntar cupons de descontos especiais. Essas poderiam ser estratégias muito úteis, obviamente. Presume-se que você já tenha estabelecido as metas certas e que queira atingi-las com menos despesas. Mas elas não tratam da questão subjacente: para que preciso de dinheiro? Ou, expressando de outra maneira: qual é a ligação entre dinheiro e vida boa?

Em outras palavras, nossa cultura de aconselhamento está sintonizada com problemas de dinheiro, em vez de com preocupações com dinheiro. Isso é um problema porque esse tema é muito profundo e difundido em nossas vidas. Nossa relação com dinheiro é para a vida inteira, ela reveste nosso senso de identidade, modela nossa atitude em relação a outras pessoas, aproxima e separa gerações; dinheiro é a arena em que cobiça e generosidade são acionadas, na qual a sabedoria é exercida e a loucura, cometida. Liberdade, desejo, poder, status, trabalho, posse: essas enormes ideias que governam a vida são, quase sempre, representadas no dinheiro e em torno dele?.

Possivelmente, o sofrimento de muitas pessoas diminuiria se conseguissem desenvolver uma educação para o desapego. Os problemas com o dinheiro aparecem à medida que gastamos mais do que ganhamos. E as preocupações surgem, quando esses problemas nos tiram a paz, nos conduzindo a desequilíbrios e situações quase sempre sem volta.