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Cultura


XXIII Encanta Lafaiete reúne gerações, repertórios e histórias

Encontro coral apresentou grupos de reconhecida trajetória nacional, revelou novos conjuntos, levou iniciação musical às escolas e homenageou Helena dos Santos e o Trio Amadeus



Fotos: Camila Marçal


 

Durante quatro dias, Conselheiro Lafaiete recebeu grupos de diferentes formações e gerações, aproximando excelência artística, educação musical e memória local. A iniciativa acontece a dois anos dos 30 anos do Madrigal Roda Viva.


Cinco dias, muitas histórias

Entre uma apresentação e outra, o que se viu no XXIII Encanta Lafaiete foi mais do que uma sucessão de concertos. Havia, em cada grupo, uma história diferente de formação, persistência, pesquisa e trabalho coletivo.

De 23 a 27 de setembro, Conselheiro Lafaiete recebeu coros de Belo Horizonte, João Monlevade, Congonhas, Ouro Branco, Barbacena, e Itabirito, além das formações locais e do Rios ao Luar, de Entre Rios de Minas.

Realizado pelo Madrigal Roda Viva, com apoio da Prefeitura, por meio da SECULT, e de segmentos do comércio local, o encontro teve boa presença de público nas quatro noites.

Foram apresentados repertórios bastante variados, acompanhados com interesse e conhecimento por quem ocupou os espaços de concerto, numa demonstração de que a cidade possui uma audiência capaz de acolher propostas musicais de diferentes naturezas.

Entre os convidados estiveram o Ars Nova da UFMG e o Coral Canarinhos de Itabirito, dois grupos de trajetória reconhecida no cenário coral brasileiro. Vieram também o Coral Cidade dos Profetas, de Congonhas, o Coral Samba & Seresta, de Ouro Branco, o Coral do IVERT, de Barbacena, o Coral Magis, de Belo Horizonte, e duas formações de João Monlevade que representam momentos muito diferentes da prática coral.


Uma história de 63 anos e outra que começa

O Coral Monlevade chegou trazendo 63 anos de história. No figurino, uma frase: “Ainda estamos aqui”. Não era apenas uma inscrição. Era uma informação sobre o tempo. Enquanto muitos projetos culturais desaparecem quando mudam seus dirigentes, seus espaços ou suas fontes de apoio, aquele grupo continuava reunindo pessoas para cantar.

Do mesmo município veio o Coral Monlevade EnCanto, formado por dezenas de estudantes da rede municipal, sob a regência de Rita de Cássia Abreu e Silva. Se um grupo apresentou a marca de seis décadas, o outro apresentou aquilo que ainda não tem idade suficiente para ser chamado de tradição, mas de uma promessa auspiciosa.

O Coral do IVERT, de Barbacena, trouxe outra situação: a de um conjunto que começa a afirmar sua identidade. Sua participação mostrou um trabalho em desenvolvimento e deixou entrever possibilidades para os próximos anos. Essa convivência entre diferentes estágios da vida coral foi uma das riquezas do encontro.


O trabalho começou antes do palco

A parte mais extensa da preparação do Madrigal Roda Viva talvez tenha acontecido sem holofotes. Nas semanas que antecederam os concertos, cantores do grupo e o regente Geraldo Vasconcelos estiveram em escolas públicas e em uma escola infantil particular, realizando oficinas de iniciação ao canto coral.

As atividades abordaram postura, técnica vocal, disciplina, história da música e princípios do trabalho em conjunto. As crianças e os estudantes também prepararam repertório.

Entre as músicas escolhidas estavam “Anel Mágico”, de Marcos Vianna, “A Paz”, de Michael Jackson, e “Agora eu sei”, composição de Helena dos Santos, lafaietense cuja obra foi gravada por Roberto Carlos.

O resultado apareceu durante os concertos. Os estudantes não foram apenas espectadores. Entraram nas apresentações como participantes, cantaram ao lado dos grupos convidados e, em diferentes momentos, ajudaram a construir a dimensão comunitária da iniciativa.

É uma diferença importante. Em vez de levar crianças para assistir a um espetáculo, o trabalho fez com que algumas delas chegassem ao palco sabendo o que significa permanecer em silêncio antes da entrada, respirar juntas, acompanhar uma regência e sustentar uma linha musical dentro de um conjunto.


Helena dos Santos volta à cidade pela música

A homenagem a Helena dos Santos foi um dos pontos de maior significado afetivo desta edição. Nascida em Conselheiro Lafaiete, a compositora teve várias obras gravadas por Roberto. Maria, sua filha mais velha, vive no Rio de Janeiro e não pôde comparecer por motivo de enfermidade. Enviou uma mensagem em vídeo, agradecendo a homenagem e relatando aspectos da trajetória da mãe.

“Agora eu sei” esteve presente durante os quatro dias. Preparada pelos estudantes nas oficinas, foi cantada pelas formações escolares, pelos coros convidados e pelo público.

A composição deixou de ocupar apenas o lugar reservado a uma obra de repertório e passou a funcionar como ponto de encontro entre a memória de uma compositora e uma geração que ainda está descobrindo a música.


Trio Amadeus e o encontro com uma geração

O segundo homenageado foi o Trio Amadeus, cuja trajetória mantém vínculos estreitos com Conselheiro Lafaiete e com a região.

Na noite de 24 de setembro, na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, Marcelle e Fábio estiveram presentes. O cerimonial recuperou a importância do grupo para a vida artística regional e, em seguida, o Madrigal Roda Viva dividiu com os dois integrantes a interpretação de “Quem sabe isso quer dizer amor”.

Foi uma cena de rara beleza e particularmente significativa porque colocou no mesmo palco artistas ligados a diferentes momentos da história musical da cidade. A homenagem deixou de ser uma referência ao passado e ganhou presença diante de quem acompanhava a apresentação.


Um mapa musical sem fronteiras

Os concertos permitiram ao público atravessar séculos de música sem sair de Lafaiete.

O Madrigal Roda Viva apresentou obras de Manoel Dias de Oliveira, John Rutter, Theodore Dubois, Herivelto Martins e Renato Russo, num percurso que reuniu tradição sacra, lirismo e diferentes vertentes da canção brasileira, sob a regência segura de Geraldo Vasconcelos.

O Ars Nova UFMG percorreu Sandra Mohr, Ernst Mahle, Villa-Lobos, Vinícius de Moraes, Arvo Pärt e Milton Nascimento, revelando a amplitude de seu repertório e a refinada concepção musical de Lincoln Andrade.

O Coral Canarinhos de Itabirito trouxe John Rutter, García Lorca, Dori Caymmi e Herbert Vianna, em uma apresentação de grande vitalidade, conduzida com apuro por Éric Lana.

Três formações distintas, três maneiras de construir a música, todas marcadas pela qualidade de seus intérpretes e pela personalidade artística de seus regentes.

O Coral Samba & Seresta aproximou Verdi de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O Coral Cidade dos Profetas apresentou repertório que incluiu Castro Lôbo e Lôbo de Mesquita.

O Coral do IVERT reuniu negro spirituals, repertório brasileiro e canções de diferentes tradições.

O Coral Magis trouxe ao Encanta Lafaiete uma presença de rara leveza. O repertório, construído sobre canções de forte comunicação com o público, transitou por diferentes matizes da música brasileira, de “Divino Maravilhoso”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, a “Veja Margarida”, de Vital Farias, “Criaturas da Noite”, de Flávio Venturini, e ao medley “Casa de Farinha/Cirandeiro”. A escolha das obras encontrou imediata correspondência da plateia.

Na regência, e ao piano, estava Daniel Rezende, jovem músico cuja presença acrescentou ao momento uma camada especial de memória. Vasconcelos afirma que “Daniel é cria da casa: foi cantor do Madrigal Roda Viva e permanece ligado ao grupo, retornando sempre que a música encontra uma ocasião para reunir antigos caminhos. Vê-lo agora conduzindo outros cantores, com a maturidade de quem transformou a experiência vivida em linguagem própria, é uma imensa satisfação”


A cidade também entrou em cena

A abertura apresentou uma novidade: a presença de grupos de canto coletivo do município. Participaram os Seresteiros da Amizade, o Pelos Cantos da Casa, da Casa do Teatro, e o Poesia Social, da LESMA. O Grupo Rios ao Luar, de Entre Rios de Minas, participou como convidado especial.

A iniciativa ampliou o desenho do encontro. Ao lado de coros com décadas de trajetória, apareceram grupos vinculados a outros modos de fazer música em comunidade.

A diferença entre eles não precisou ser eliminada. Ao contrário, foi justamente essa diversidade que deu espessura à abertura.


Dois anos para os 30

O XXIII Encanta Lafaiete acontece quando o Madrigal Roda Viva começa a entrar na contagem regressiva para seus 30 anos, em 2028, quando o Madrigal Roda Viva completar 30 anos, esta edição estará entre as páginas dessa história.

E algumas dessas páginas terão sido escritas por vozes que, até pouco tempo atrás, ainda não sabiam que um coral também poderia ser uma maneira de descobrir o próprio lugar no mundo.

Na manhã de domingo, 27, o Madrigal Roda Viva levou o Coral Monlevade, de origem operária e profundamente ligado à educação, à Fazenda Paraopeba, para um encontro em que canto, história e memória se entrelaçaram.

Em uma verdadeira permuta, as vozes dos coros dialogaram com Simone Filomena, da ECOTRES, que apresentou a história da Fazenda Paraopeba, do Quilombo do Mato Dentro e sua própria trajetória de luta e conquistas.

Locus iste, Ave Maria de Arcadelt e o spiritual Steal Away ganharam, naquele lugar, uma dimensão que ultrapassava a música: as obras passaram a conversar com a terra, com aqueles que a habitaram e com as histórias que ainda reclamam memória.

Um encerramento encantado, à altura de um grande festival que procurou fazer do canto mais que uma apresentação. Na Fazenda Paraopeba, a última nota, encantada.


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Postado por Maria Teresa, no dia 01/10/2026 - 16:59


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