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Leitura se torna vantagem competitiva em um mundo dominado pela IA

Estudos recentes mostram que a leitura reorganiza funções cognitivas fundamentais, como memória, atenção e raciocínio



Foto: Freepik


 

A inteligência artificial mudou a forma como produzimos, buscamos e interpretamos informações, mas também reforçou uma habilidade humana que parecia estar perdendo espaço: a capacidade de ler profundamente. Em um cenário no qual máquinas conseguem gerar textos, resumir conteúdos e responder perguntas em segundos, a diferença entre quem apenas utiliza uma ferramenta e quem realmente consegue extrair valor dela está na capacidade de formular boas perguntas, avaliar respostas e identificar erros.

Um levantamento do Max Planck Institute for Psycholinguistics, conduzido pelo pesquisador Falk Huettig e divulgado em julho de 2026, indica que a alfabetização reorganiza diversas funções cognitivas, incluindo memória, atenção, linguagem, raciocínio e reconhecimento visual. Os efeitos não ficam restritos à infância: adultos que mantêm contato frequente com textos complexos continuam estimulando essas capacidades ao longo da vida.

Para a cientista comportamental Gaya Machado, o avanço da inteligência artificial tornou a leitura ainda mais estratégica. “A IA não elimina a necessidade de pensar; ela aumenta a necessidade de julgamento. Quem possui uma base de leitura mais desenvolvida consegue formular melhor, avaliar melhor e corrigir melhor aquilo que a tecnologia produz. Sem essa base, a pessoa corre o risco de apenas aceitar respostas sem compreender sua qualidade”, afirma.


O cérebro treinado pela leitura desenvolve habilidades que a IA ainda não substitui

A leitura profunda exige processos cognitivos complexos: manter atenção por longos períodos, construir relações entre ideias, interpretar intenções e atribuir significado ao que está sendo lido. Essas habilidades são justamente as que sustentam decisões, criatividade e pensamento crítico.

Segundo a OCDE, por meio do levantamento PIAAC (Programa Internacional de Avaliação de Competências de Adultos), 26% dos adultos avaliados em países da organização apresentam níveis de letramento iguais ou inferiores ao nível 1, o que significa capacidade limitada para compreender apenas textos simples. O estudo avaliou cerca de 160 mil pessoas entre 16 e 65 anos em 31 países e apontou estagnação ou queda nas habilidades de leitura em diferentes regiões.

Embora o Brasil não participe do PIAAC, o cenário nacional também acende um alerta. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que, pela primeira vez, o número de não leitores ultrapassou o de leitores no país.

Para Gaya, essa combinação cria um paradoxo: justamente quando a capacidade de interpretar informações se torna mais importante, a prática que fortalece essa competência está diminuindo. “O problema não é apenas cultural ou educacional. Existe um impacto comportamental e cognitivo. A leitura treina a atenção sustentada, uma habilidade cada vez mais necessária em um ambiente dominado por estímulos rápidos e fragmentados”, explica.


IA amplia conhecimento, mas depende de humanos capazes de avaliar

O crescimento das ferramentas de inteligência artificial trouxe uma nova camada para a relação com o conhecimento. Sistemas atuais conseguem produzir textos com alta precisão, mas ainda apresentam limitações na compreensão de nuances, ironias, referências culturais e intenções humanas.

Segundo indicadores de capacidade de IA da OCDE, modelos atuais conseguem simular respostas que parecem empáticas, mas não possuem compreensão real de contexto ou intenção.

Nesse cenário, a leitura deixa de ser apenas uma habilidade de comunicação e passa a funcionar como uma ferramenta de controle de qualidade. “A inteligência artificial pode acelerar processos, mas a decisão sobre o que faz sentido continua dependendo de uma pessoa capaz de interpretar informações e questionar”.


Ficção também treina empatia e compreensão do outro

Além dos gains cognitivos, a leitura, especialmente de ficção, também está relacionada ao desenvolvimento de habilidades sociais. Uma meta-análise publicada pela American Psychological Association (APA) em 2024 analisou a relação entre leitura de ficção e empatia, enquanto estudos neurocientíficos da Queen’s Reading Room investigaram como o cérebro responde ao contato com narrativas de experiências diferentes das próprias. Ao acompanhar personagens, leitores exercitam a capacidade de compreender perspectivas distintas, interpretar emoções e lidar com situações fora da própria realidade.

A inteligência artificial tornou o acesso à informação praticamente ilimitado, mas também aumentou a necessidade de competências humanas para lidar com esse volume de conteúdo. Para Gaya, o futuro da relação entre humanos e tecnologia passa por recuperar o valor do letramento profundo. “A leitura não compete com a inteligência artificial; ela é o que permite que as pessoas usem a inteligência artificial com mais consciência. Quanto mais poderosa a ferramenta, maior precisa ser a capacidade humana de interpretá-la”, conclui.
 

Sobre Gaya Machado

Cientista comportamental, Especialista em Neurociências e Mestre em Comunicação, é professora de MBA, coautora de seis livros e criadora do método Mind Skills. Palestrante, tem atuação em mais de oito países, participação ativa em eventos globais de comportamento como SXSW, CSW70 ONU e é integrante do Harvard Business Review Advisory Council. Assina o perfil @gayalendo no Instagram.

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Postado por Maria Teresa, no dia 17/08/2026 - 11:39


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