Foto: Divulgação
O Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico de Conselheiro Lafaiete (Comphap) decidiu pelo tombamento da antiga escola municipal Meridional, no Morro da Mina, durante reunião extraordinária realizada na sexta-feira, dia 7. A medida também inclui o entorno do imóvel e representa um avanço para impedir a demolição de um patrimônio com mais de 100 anos de história.
A decisão encerra, ao menos nesta etapa, uma indefinição que se arrasta desde 2021, quando o próprio Comphap já havia deliberado pela proteção do prédio. Uma ata de reunião realizada em 16 de junho daquele ano registra que a Comissão de Tombamentos, Inventários e Demolições determinou a adoção dos procedimentos legais necessários para garantir a proteção definitiva da escola.O processo, entretanto, não avançou. Segundo o histórico apresentado ao Conselho, as razões para a paralisação permanecem desconhecidas.
Proposta de equipamento eletrônico foi recusada
Durante o período em que o processo ficou sem conclusão, a Vale apresentou uma proposta para instalar, em outro ponto da cidade, um equipamento eletrônico destinado a contar a história da Escola Meridional.A alternativa possibilitaria a reversão do tombamento e a demolição do prédio. O Comphap, porém, recusou a proposta e manteve a defesa da preservação do imóvel.Com a decisão tomada nesta sexta-feira, as próximas etapas passam a depender da estrutura administrativa da Prefeitura de Conselheiro Lafaiete.O posicionamento do Conselho será encaminhado ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e à Secretaria Municipal de Cultura. O município deverá apresentar, em até 180 dias, prazo que poderá ser prorrogado por igual período, um estudo técnico e um parecer que servirão de base para o tombamento definitivo.
Família de Serafim Sanna defende preservação
A mobilização pela conservação do imóvel também conta com o apoio de familiares de Serafim Sanna, fundador da Escola Meridional em 1915.Integrantes da família solicitaram a proteção do prédio, em movimento que também recebeu manifestações favoráveis de órgãos ligados ao meio ambiente.
Os nomes das pessoas envolvidas nessa mobilização não foram divulgados, com o objetivo de evitar exposição diante dos interesses relacionados à área.A importância histórica de Serafim Sanna e da Escola Meridional já havia sido reconhecida oficialmente pela Prefeitura. Em 2015, durante as comemorações dos 100 anos da instituição, familiares do fundador foram homenageados e a administração municipal manifestou interesse na permanência da escola no local.
Região pode ter seis sítios arqueológicos
Além do valor histórico da escola, a área do Morro da Mina pode reunir outros elementos relevantes para a preservação.Segundo informação recebida pelo presidente do Comphap, o historiador e pesquisador Luiz Otávio da Silva, existem seis sítios arqueológicos nas proximidades da Escola Meridional que estariam em estudo no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A informação ainda depende de confirmação documental específica junto ao Iphan.Caso confirmada, a existência desses sítios acrescentará uma nova dimensão às discussões sobre intervenções na região, que envolve questões históricas, ambientais, mineralógicas e potencialmente arqueológicas.
Morro da Mina tem papel importante na história de Lafaiete
O Morro da Mina ocupa um espaço importante na trajetória econômica de Conselheiro Lafaiete.A exploração do manganês alcançou projeção internacional, inclusive durante as duas guerras mundiais, e a atividade mineradora influenciou por décadas a economia e a formação social do município.A região também contou com estruturas ferroviárias utilizadas no transporte de minério e com um sistema de teleférico para o deslocamento de caçambas.
Foi nesse contexto que surgiu a Escola Meridional, criada para atender crianças da comunidade, incluindo filhos de trabalhadores ligados à mineração.Para Luiz Otávio, a relevância do imóvel não deve ser avaliada somente por suas características arquitetônicas, mas também pelo papel desempenhado na história da comunidade e da mineração em Lafaiete.
Conselho quer descobrir paradeiro de objetos históricos
O trabalho de preservação não deverá ficar restrito ao prédio.O Comphap pretende investigar também o paradeiro de objetos históricos relacionados à Escola Meridional cuja localização atualmente é desconhecida.A intenção é levantar documentos e registros para identificar quais peças faziam parte da instituição e descobrir o destino desses materiais.A iniciativa amplia o debate sobre a preservação da escola, considerando que a memória da instituição também está relacionada a documentos, objetos e outros elementos capazes de ajudar a reconstruir sua trajetória.
Durante a discussão, o presidente do Comphap, Luiz Otávio da Silva, destacou a responsabilidade do Conselho diante da possibilidade de demolição do imóvel.“Assinar a autorização de demolição de um prédio com a magnitude da importância histórica do prédio da Escola Meridional é ferir os ideais constitutivos de qualquer órgão de defesa do patrimônio. Nós não podemos deixar registrado na história tamanha ofensa à memória de nosso povo.”Após a análise das posições apresentadas durante a reunião, o Conselho votou pelo tombamento. Segundo Luiz Otávio, a decisão do órgão é soberana.
Com a decisão do Comphap, o processo entra em uma nova fase. A secretaria municipal de Cultura deverá elaborar os estudos necessários para subsidiar o avanço do procedimento de tombamento definitivo.Depois de um processo iniciado em 2021 e que permaneceu sem solução durante anos, a posição do Conselho está definida: a antiga Escola Meridional e seu entorno devem ser preservados.
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Postado por Rafaela Melo, no dia 10/08/2026 - 10:36