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A indústria do clique vazio: quando audiência vira ilusão

Estratégia baseada em inteligência artificial infla métricas, engana anunciantes e corrói a credibilidade do jornalismo



Ilustração Gerada por IA


 

Luís Otávio Pires

Um fenômeno silencioso — e profundamente preocupante para a indústria da comunicação — tem se espalhado por redações e departamentos comerciais: a transformação da notícia em isca. Sob o apelido quase irônico de “sabor notícia”, cresce o uso de conteúdos produzidos com apoio de inteligência artificial que imitam o formato jornalístico, mas esvaziam sua essência. O resultado é uma avalanche de manchetes chamativas, muitas vezes alarmistas, que prometem muito e entregam pouco — ou nada. O tema foi levantado inicialmente pelo site Moon BH e tem gerado polêmica no segmento da comunicação social.

A lógica é simples: capturar atenção a qualquer custo. Títulos exagerados, temas desconexos e urgências fabricadas criam um ambiente onde o clique vale mais que a informação. Em poucos dias, portais registram saltos expressivos de audiência. Em alguns casos, quase toda a base de leitores passa a vir desse tipo de conteúdo. Mas por trás dos números inflados, esconde-se uma verdade incômoda: não há público qualificado — apenas tráfego passageiro.

Se, para alguns veículos, a estratégia parece eficiente no curto prazo, para o mercado publicitário ela representa um problema crescente. Agências e anunciantes, seduzidos por métricas volumosas, investem em espaços que prometem alcance, mas não entregam resultado. O público impactado, muitas vezes, não tem qualquer relação com o produto anunciado.

A consequência é direta: campanhas com baixa conversão e desperdício de recursos. A percepção de ineficiência contamina o setor como um todo. Quando marcas se sentem enganadas, a tendência é reduzir investimentos — o que penaliza inclusive veículos que atuam de forma ética e responsável.

A crítica não vem apenas da observação do mercado — ela é reforçada por quem acompanha o setor de dentro. Para o presidente do Sindicato dos Proprietários de Jornais, Revistas e Similares do Estado de Minas Gerais (Sindijori-MG), Rodrigo Silva Fernandes, há um movimento claro de distorção deliberada dos números. Segundo ele, alguns veículos têm se especializado em “enganar o mercado”, utilizando inteligência artificial e métodos não profissionais para maquiar audiências que não se sustentam na prática.

 

A indústria do clique vazio: quando audiência vira ilusão -
Rodrigo Silva Fernandes, do Sindijori-MG: “O papel do jornalismo permanece o mesmo – divulgar fatos reais e apresentar números transparentes” (Foto: Sebastião Jacinto Jr.)

 

Diante desse cenário, o sindicato tem apostado na capacitação técnica como resposta. A ideia é separar “o joio do trigo”, ao incentivar práticas de crescimento orgânico e jornalismo sem sensacionalismo.

“O papel do jornalismo permanece o mesmo: divulgar fatos reais e apresentar números transparentes, como forma de sustentar um mercado ético e profissional — algo que se torna ainda mais desafiador diante do uso indevido das novas tecnologias”, salienta.

 

Já na avaliação do presidente do Sindicato das Agências de Propaganda de Minas Gerais (Sinapro-MG), Gustavo Faria, o fenômeno tem raízes antigas.

“É o famoso clickbait. A diferença agora está na escala e na velocidade com que essas práticas se disseminam, impulsionadas por ferramentas digitais e aplicativos de mensageria”, explica.

 

Para ele, trata-se de uma estratégia claramente antiética, que precisa ser combatida tanto pela conscientização de quem produz quanto de quem consome. Faria chama atenção para o papel das redes e aplicativos como vetores dessa dinâmica, ao permitir a circulação de chamadas apelativas que transformam o clique em ativo comercial.

Apesar da gravidade, há um entrave: a ausência de regulamentação específica. O dirigente destaca que, embora a prática possa ser interpretada como enganosa, ela ainda transita em uma zona cinzenta entre liberdade de expressão e fraude. Ainda assim, a posição do setor é firme: reprovação total.

Ele também alerta para um efeito sistêmico.

 

“Quando anunciantes percebem que foram atraídos por métricas artificiais e não obtêm retorno, a tendência é cortar investimentos — prejudicando todo o ecossistema da comunicação, inclusive quem atua corretamente”, afirma.

 

A avaliação é reforçada pelo sócio da Agência LFI de BH, o publicitário André Lacerda, que classifica o uso indiscriminado de clickbait como uma prática “no mínimo imoral e antiética”. Para ele, esses conteúdos exploram a boa-fé do usuário, ao prometerem uma informação e entregando outra completamente diferente.

Lacerda também aponta um limite para esse modelo: a própria percepção do público.

 

“Com o tempo, leitores passam a identificar padrões enganosos e a desconfiar das fontes, o que compromete a sustentabilidade dessas estratégias. O ganho imediato de audiência, portanto, vem acompanhado de uma perda progressiva de credibilidade”, acredita.

 

Na visão dele, cabe aos profissionais do setor identificar, expor e combater essas práticas. Mais do que uma disputa por cliques, trata-se de preservar a confiança — ativo essencial para qualquer veículo de comunicação.

O risco de colapso da credibilidade da indústria da comunicação

A curto prazo, o “sabor notícia” pode até inflar relatórios. Mas a médio e longo prazo, o efeito tende a ser inverso. A repetição de conteúdos vazios, contraditórios ou sensacionalistas desgasta a relação com o público e banaliza a informação.

Quando tudo parece urgente, nada é relevante. E quando a notícia deixa de ser confiável, o próprio papel do jornalismo e da indústria da comunicação entra em crise.

Apesar do avanço dessas práticas, há uma reação em curso. Entidades, agências e veículos comprometidos com a ética têm investido em transparência, qualificação e leitura crítica de dados para diferenciar crescimento real de artificial.

No fim, a disputa não é apenas por audiência — é por credibilidade. E essa não pode ser fabricada por algoritmos nem inflada por manchetes vazias.

Porque audiência sem verdade não constrói valor. Apenas fabrica números — e, no processo, corrói a base de todo o mercado.




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Postado por Maria Teresa, no dia 15/04/2026 - 16:56


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