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Rogéria Ramos


Respeito não se revoga



Enquanto a cidade segue seu ritmo lá fora, algumas decisões passam pelo plenário como se fossem apenas ajustes técnicos. Mas a política revela muito mais do que números em uma pauta. Ela mostra como cada agente público enxerga o espaço que todos dividem. Não é preciso citar nomes para entender escolhas. Basta observar aquilo que se tenta mudar e, principalmente, aquilo que se aceita colocar em risco. A tentativa de enfraquecer uma lei histórica que protege o entorno de hospitais e templos religiosos não foi um detalhe burocrático. Foi um sinal. Hospitais não são apenas prédios.

São lugares onde famílias atravessam seus momentos mais frágeis, onde o silêncio não é luxo, é cuidado. Igrejas e templos também não são apenas construções: para muitos, representam abrigo, fé e equilíbrio em meio às pressões da vida cotidiana. Quando se discute o entorno desses espaços, não se debate apenas urbanismo. Debate-se respeito. A legislação que criou essa proteção nasceu de uma compreensão simples: crescer não significa ocupar tudo. Desenvolvimento verdadeiro reconhece limites quando o assunto é dignidade coletiva. Não se tratava de impedir a cidade de avançar, mas de garantir que o avanço não atropelasse aquilo que sustenta a convivência humana. Ainda assim, houve quem tratasse essa proteção como algo flexível, quase dispensável. 

Mais do que a proposta em si, chamou atenção a naturalidade com que votos foram dados, como se uma construção histórica pudesse ser reduzida a uma formalidade qualquer. É nesse momento que a política fala mais alto, sem precisar elevar o tom. Cada decisão revela uma visão de cidade, e a população percebe, mesmo quando a linguagem é técnica. Talvez o que não tenha sido previsto foi a reação da própria comunidade. Sem ataques pessoais, sem exageros, cidadãos lembraram que certas leis existem porque alguém, um dia, pensou além do imediato.

Defender hospitais e templos não é ideologia. É reconhecer que existem espaços que pedem cuidado antes de qualquer interesse circunstancial. Há valores que não precisam de discursos inflamados para serem compreendidos, apenas de coerência. E coerência é justamente o ponto que fica em evidência. Não basta falar em respeito se, na prática, se abre caminho para iniciativas que fragilizam ambientes que simbolizam cuidado e fé. 

A população observa, conecta os fatos e forma sua própria leitura, mesmo quando as decisões são apresentadas como simples ajustes legislativos. No fim, esse episódio deixa uma lição silenciosa: a política não se mede apenas pelo que é aprovado ou retirado de pauta, mas pela percepção que permanece. Leis sensíveis não surgem por acaso, e tentativas de enfraquecê-las sempre dizem mais do que aparentam. A cidade pode até mudar suas normas, mas há algo que não deveria ser negociado: o respeito que mantém os espaços humanos antes de serem apenas urbanos. Porque desenvolvimento sem sensibilidade não é avanço. É apenas a pressa de esquecer aquilo que deveria ser preservado por todos.



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Escrito por Rogéria Ramos, no dia 06/03/2026

Rogéria Ramos


Rogéria Ramos, presidente da Associação dos Moradores Unidos do Bairro Santo Agostinho E-mail [email protected] Instagram @rogeriaramosss


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