Cultura


Matriz de Lafaiete guarda obras centenárias de Schumacher



Há décadas se dedicando aos estudos acerca da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a historiadora e escritora Avelina Maria Noronha de Almeida sempre se encantou com as seis telas que se encontraram no templo, focalizando a vida de São José, que são de  autoria do pintor alemão Guilherme Schumacher. Essas e outras obras de Schumacher completaram 100 anos em maio de 2015. Para ela, é importante que a cidade faça uma exposição para marcar a comemoração do centenário dos quadros.

Avelina pondera que não há notícias concretas sobre quem pintou os quadros dos altares laterais da nave da Matriz de Nossa Senhora da Conceição (velários), antigamente colocados um de cada lado da porta da entrada. Nos altares ficavam, colocadas nos nichos, do lado esquerdo, a imagem de Nosso Senhor dos Passos e, à direita, a imagem de Nossa Senhora das Dores. “Seriam também pintados por Schumacher? Não havia nenhuma referência escrita sobre isso. Até que um grande colaborador, Mauro Dutra de Faria, passou-me umas fotos dos quadros de Guilherme Schumacher que havia tirado na Igreja de São José, em Belo Horizonte. Alguns detalhes me chamaram a atenção e a semelhança encontrada neles com detalhes das pinturas da nossa Matriz deu-me a certeza de que, realmente os quadros da nave foram pintados por Schumacher”, destaca, reforçando a importância de reverenciar o centenário dos trabalhos de Schumacher. 

O primeiro detalhe que chamou a atenção da historiadora é a presença de pequenas flores brancas, muito semelhantes às existentes em quadros da igreja de São José, em Belo Horizonte, pintados pelo alemão, e flores presentes nesses velários. “Talvez flores do campo, típicas da terra de onde veio. É como se fosse uma assinatura do artista. Poderia ter vindo na inspiração do pintor, que estava longe da pátria e queria colocar essas flores, comuns na Alemanha, como uma lembrança de sua terra”, sugere.

Nas paredes do Coro, Schumacher ainda pintou, de um lado, à direita de quem entra, dois anjos cantando e, do outro, à esquerda de quem entra, Santa Cecília tocando um órgão. “Santa Cecília é a padroeira dos músicos e da música sacra. Era cantora e tinha uma voz maravilhosa. Quando estava morrendo, martirizada, cantou a Deus. Foi a primeira santa encontrada com corpo incorrupto, no ano de 1599, mesmo depois de muitos séculos de sua morte. A presença de  anjos se explica pela importância que eles tiveram na vida de Santa Cecília”, comenta.

 

Quem foi Schumacher

 

Segundo  Avelina,  Schumacher   era   um   ruivo pintor e decorador  de  profissão.  Estudou  na Escola de Belas Artes de Munique e Düsseldorf, na Alemanha, e em Bolonha, na Itália. Deixou sua terra natal e veio se estabelecer no Brasil como colono. De 1911 a 1912, o artista realizou, em Belo Horizonte, a decoração interna da Igreja de São José, em estilo neogótico, recriando pinturas existentes em igrejas da Europa. Em Belo Horizonte, o Centenário da entrega de suas pinturas, em 2012, foi festivamente comemorado na capital mineira, tendo o SENAC realizado uma bela exposição de suas obras.

Porém Avelina comenta que o mais importante é ser ele um artista que trouxe a beleza de sua arte para a Matriz de Nossa Senhora da Conceição. “Neste ano de 2015 ocorre o centenário de suas belas obras, entregues em maio de 1915, quando era vigário o redentorista Padre Américo Adolpho Taitson”, destaca.

A historiadora afirma que, embora três telas tenham se estragado e também se perdido no tempo, a belíssima decoração que representava Nossa Senhora Auxiliadora rodeada por seus quatorze santos auxiliares – pintura que foi erradamente atribuída, por muitos, ao Mestre Athayde – outras pinturas do autor podem ser vistas e admiradas. Atualmente, nas paredes laterais do altar-mor, três quadros: ‘‘O nascimento do Menino Jesus’’, ‘’Menino Jesus trabalhando com São Jos钒 e ‘‘A morte de São Jos钒 pertencem de Schumacher. Sobre essas pinturas, estão quatro telas (duas de cada lado) representando os Doutores da Igreja (São Gregório Magno, São Jerônimo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho).

Nas paredes laterais da nave ficam: os quadros da Via-Sacra; os dois velários representando Cristo no Horto das Oliveiras e Nossa Senhora aos Pés da Cruz. Na frente do coro, Santa Cecília de um lado e anjos cantando do outro. “Tudo é muito belo! Cem anos se passaram, o artista passou, mas sua obra permanece. Vamos admirar os trabalhos desse genial pintor”, convida. 

 

Quadros guardam tesouro

 

Avelina também conta que, com a reforma da Matriz concluída em 2012, descobriu-se que esses quadros foram pintados por Schumacher em cima de pinturas anteriores  com o mesmo tema. Mas havia algo que a implicava: em seu diário, D. Pedro II, que aqui esteve em 1881, disse que fora na Matriz à noite, e escreveu o seguinte: "Na capela-mor há pinturas que talvez não sejam más, porém, a falta de luz não me permite vê-las bem". 

A historiadora pondera que tinha uma interrogação perturbadora. “Se os quadros foram pintados por Schumacher na primeira década do século XX, como D. Pedro II as veria em 1881? Seriam, então, outros quadros... Acontece que, durante a reforma recente, três dos quadros pintados por Schumacher tiveram que ser tirados por causa dos estragos. Com isso apareceram telas, com o mesmo tema, mas com as diferenças das épocas e do estilo dos artistas. São, certamente, três dos quadros vistos pelo Imperador. Esses mais antigos, de acordo com a restauradora, consultada por Avelina, são da primeira metade do século XVIII.

Conforme a historiadora, houve um problema porque a ordem dos quadros foi alterada quando Schumacher os colocou de novo na moldura, por isso, com a restauração, ficou faltando o episódio de São José tendo seu lírio florido e sendo, assim, o escolhido, entre outros pretendentes, para esposar Nossa Senhora, a procissão de casamento de São José e Nossa Senhora e Jesus pregando no templo entre os doutores. Com a colocação errada em 1915, ficaram na parede dois quadros do nascimento do Menino Jesus.




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Escrito por Rafaela Melo, no dia 09/10/2015


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