Comunidade


Surdos criam sinais para explicar, em Libras, a história de Congonhas



Os surdos de Congonhas não podiam conhecer, pelo seu sistema de comunicação, a história da própria cidade. Nem mesmo quem eram os Profetas - obras-primas de Aleijadinho esculpidas em pedra-sabão, que podem ser colocadas entre as mais icônicas de nosso acervo cultural. E foi a partir dessa necessidade que o Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) - Campus Congonhas realizou um projeto criando sinais que traduzem a parte histórica da cidade. Para isso, foi investigada a terminologia em Libras do setor turístico, considerando os termos mais recorrentes: Congonhas, Alei­ja­dinho, arte barroca, Feliciano Mendes, Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Passos da Paixão, Romaria, Isaías, Jeremias, Naum, Oséias, Obadias, Jonas, Daniel, Ezequiel, Habacuque, Baruque, Joel e Amós.
Quando começou a estudar a Língua Brasileira de Sinais (Libras), em 2002, Milene Cristina Barbosa Silva não imaginava que seu conhecimento a levaria a coordenar um projeto tão importante: “Na maioria dos casos, as pessoas começam a aprender no contexto religioso. Sou Testemunha de Jeová e a gente tem um grupo que cadastra os surdos, ensina a Libras e depois os cursos bíblicos. Fiquei 7 anos trabalhando só no contexto religioso. Eu usava muito a Libras, todos os dias. Então, eu me dediquei muito. Nunca imaginei que seria minha profissão. Em 2007, uma escola me ligou informando que precisava de intérprete. Foi quando fiz um teste de proficiência e comecei a trabalhar na estadual Augusto José Vieira, no São Dimas (zona oeste)”, conta a moradora do bairro São João (zona sul).
Foi em 2017 que a tradutora e intérprete de Libras percebeu que não havia símbolos que explicassem a história de Congonhas: “Quando passei no concurso para o IFMG de Congonhas, comecei a desenvolver projetos e o objetivo era catalogar sinais. Queria conhecer o que surdos sabiam sobre a cidade. Então, os convidei para gente conversar e vi que eles não sabiam se comunicar sobre isso. Cada um deles tinha um gesto diferente, por exemplo, quando iam marcar um encontro em frente à Romaria. Estudamos a história de Congonhas para criar os sinais. Convidamos um professor de história surdo, Cassio de Souza, que contou como foi fundada a cidade, falou sobre a arte barroca, contou a história de Aleijadinho e de outros personagens”.
Os surdos da cidade participaram de todo o processo: “Eles têm a prerrogativa de criar os sinais, porque nasceram e foram criados lá. No começo, queriam um sinal estético, mas pelo fato dos Profetas serem muito parecidos, não tinha como. Então, conhecendo a história, criamos um sinal característico de cada um. Por exemplo, Oséias era um profeta que veio do campo e o serviço dele era riscar figos para amadurecer mais rápido. Então, o sinal foi baseado nisso: o riscador de figo. Cada profeta tem um sinal e é bem característico”, revela.
Agora, o IFMG e os surdos do projeto estão no processo de divulgação dos sinais: “Nas escolas, principalmente, falam muito da história de Congonhas. Então, os intérpretes tinham a dificuldade, pela ausência dos sinais. Os surdos da cidade têm muito orgulho de explicar, com propriedade, o que é aquilo, pois antes não sabiam quem eram os profetas. Achavam que eram pessoas que viveram há anos em Congonhas e que tinham feito algo pela cidade”, conclui.

Curso de Libras

Jornalista do IFMG Campus Congonhas, Lorena David explica que as unidades dos Institutos Federais ofertam o curso de Libras: “Aqui na região, sei que Congonhas e Ouro Branco têm. É um curso básico e gratuito. A gente abre edital e a pessoa se inscreve. Geralmente são 20 vagas e há uma concorrência muito grande. Temos também o curso de português para surdos”.
Ainda segundo explica, o aprofundamento na Libras depende muito da pessoa: “Acontece na prática ou quem busca estudar mais em BH. Há mais vagas para intérprete do que profissionais habilitados para se inscrever. Hoje, temos vagas e tem gente de BH vindo, porque na região não tem. Quem quiser saber mais, pode entrar em contato pelo (31) 3731-8100 ou pelo e-mail comunicacao.congonhas@ifmg.edu.br”.


Escrito por Redação, no dia 12/07/2019