Pesca


Apesar da piracema terminar oficialmente dia 28, é preciso continuar



Qualquer bom pescador sabe que, até o dia 28 de fevereiro, a pesca de espécies nativas segue restrita em rios, lagoas, açudes e la­gos. E que quem infringir a lei ambiental não só es­tará se expondo às penalidades, que incluem mul­ta e apreensão de material, como cometerá um crime contra a subsistência das espécies. Mas porque essa ?parada forçada? na pescaria acontece, exa­­tamente, nesta época do ano? De que maneira o desrespeito ao período de defeso impacta na ri­queza biológica que deixaremos para nossos filhos e netos? Afinal de contas, o que é mesmo a piracema?
Piracema é o movimento dos cardumes de pei­xe que nadam rio acima, contra a correnteza, para realizar a desova no período de reprodução. A palavra vem do tupi e significa algo como ?saída de peixes?, como os índios descreviam esse fenômeno que ocorre com milhares de espécies no mundo inteiro. Na maior parte do Brasil, a piracema coincide com o período das chuvas de verão: a temperatura da água e do ar esquenta e o nível do rio sobe em até 5 metros. Então, os peixes percebem que é hora de vencer a correnteza para se re­produzirem nas cabeceiras dos rios, onde a chan­ce de sobrevivência dos recém-nascidos é maior.
E é atrás dessa chance que eles saem do chamado lar de alimentação, que é onde os peixes encontram comida suficiente para sobreviver na maior parte do ano. Apesar de ser algo instintivo ? afinal, ninguém sai por aí avisando os peixes de que é a hora de subir o rio - tudo nessa jornada orquestrada pela sua natureza tem sua razão de ser: o esforço contra a corrente é essencial para o processo de reprodução, pois os peixes queimam gordura e estimulam a produção de hormônios res­ponsáveis pelo amadurecimento dos órgãos sexuais.
Outra coisa interessante é que a duração da via­gem varia bastante. Peixes como as piavas não vencem mais do que 3km por dia, mas há registros de curimbatás que chegaram a rasgar 43km em apenas 24h. Para todos, porém, a jornada é cheia de perigos. Além de superar cachoeiras, predadores e outros obstáculos naturais, esses animais precisam também vencer a pesca predatória. Isso porque, durante a piracema, os peixes viram alvos fáceis, pois sobem os rios em grandes cardumes. Por isso, a solução encontrada é proibir a pesca na época da migração e da reprodução, o chamado defeso, que geralmente vai de novembro a fevereiro.
A cada ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) publica uma portaria estabelecendo quais espécies não podem ser pescadas nesse período. No período de chuvas, os cardumes iniciam a su­bida dos rios para a desova. Peixes como o curimbatá e o dourado migram mais de 600km até o local da reprodução. No trajeto, o testículo dos machos aumenta de tamanho, fica repleto de sê­men e esbranquiçado. Nas fêmeas, o aspecto amarelado das ovas indica a presença de vitelo, rica reserva de alimento presente nos óvulos que sustentará os futuros peixinhos.
Na hora da fecundação, a fêmea lança todo o seu conjunto de óvulos no fundo do rio. O número varia bastante: a piava desova em média 160 mil óvulos, enquanto para a fêmea de dourado o total pode ultrapassar 1,5 milhão. O próximo pas­so é dado pelos machos, que despejam sucessivos jatos de sêmen sobre os óvulos, dando origem a ovos fertilizados. Após a fecundação, os peixes iniciam o caminho de volta. Os ovos são hidratados pela água, aumentam três vezes de tamanho e são carregados pela correnteza.
A maioria não resiste e se torna alimento de pei­xes carnívoros. Só os que alcançam as águas cal­mas de várzeas e lagoas marginais é que conseguem sobreviver ? menos de 1% do total. Poucas horas após a fecundação, a larva rompe a casca do ovo e, durante três dias, tem a reserva de vitelo como principal alimento. Após duas semanas, o peixe, com pouco mais de 1 centímetro, já tem na­dadeiras e escamas e consome micro-organismos aquáticos das lagoas marginais, locais ricos em ali­mentos e que funcionam como verdadeiros berçários.

Dança nupcial

Na hora do acasalamento, a iniciativa é das fêmeas. Durante o trajeto da piracema, os peixes ?namoram? até quatro horas antes de iniciarem o processo de fecundação. Esse período de paquera entre machos e fêmeas parece um verdadeiro balé aquático. Nadando no meio do rio, os machos são tocados por duas fêmeas, que vêm pelas laterais. Os peixes se roçam, nadam em círculos e emitem um ruído estridente, enquanto lançam óvulos e sêmen no fundo do rio. (Com algumas informações da revista Superinteressante).



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Escrito por Pesca, no dia 01/03/2019




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