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Escola não muda educação sozinha



Mantive o título da matéria assinada por Fábio Takahashi, na Folha de São Paulo. Porém, comentei o conteúdo da entrevista que ele fez com Susan Fuhrman, a presidente do Teachers College, Faculdade de Educação mais tradicional da Columbia, EUA. No dia 13 de março, ela participou de um seminário no Rio de Janeiro, discutindo a implementação da Base Nacional Curricular que foi aprovada ano passado, ou seja, a do Ensino Fundamental. Para ela, a Base [...] ?é uma iniciativa que pode contribuir para o ensino ser mais competente, pois organiza o sistema educacional. Passa a ter um eixo no país a formação de professores e a elaboração de materiais didáticos?
Estou realmente muito envolvido com a pergunta sobre a formação de professores para atuarem na nova modalidade curricular. Retomo a frase do meu amigo, professor Carlos Alberto, Bebeto, que me indagou há alguns meses: José, e quem vai formar os formadores de professores?? Infelizmente, os governos federal e estadual lançam projetos sem estruturar as bases para sua implementação. É o que está acontecendo, por exemplo, com a experiência do Integral, que deve começar com os projetos apenas agora, em abril. Mesmo assim, sem verba planejada para as atividades. É um absurdo que as medidas sejam tomadas sem uma gestão econômica, sem metas claras, tudo a Deus dará.
Nesse sentido, Susan é bem clara: ?A adoção dessas mudanças está prevista para 2019. Para Fuhrman, foi justamente na elaboração dos currículos que política semelhante nos EUA se perdeu?. Ela menciona o Common Core (núcleo comum), lançado em 2010, nos EUA. Diz que ele começou com amplo apoio, mas passou a enfrentar resistências de professores, pais e educadores e que já foi abandonado por ao menos 8 de 45 estados (nos EUA, o programa é opcional). Não vai ser diferente no Brasil, mesmo sendo obrigatória a aplicação da BNCC. Faltam políticas públicas fundamentadas por aqui, o que só amplia a desigualdade social que, sozinha, a escola jamais vai conseguir superar no gigante pela própria natureza e lentidão.
Apesar de Susan ser formada pela Faculdade de Educação onde hoje é presidente, não me parece que dará grande contribuição ao Brasil na discussão sobre a implementação da BNCC até 2023 (está esticando, percebe?). Ela vem de um país que, como o Brasil, tenta melhorar a qualidade da educação. Os americanos estão abaixo da média dos países desenvolvidos em matemática no Pisa, principal avaliação internacional de ensino. O Brasil ocupa a 65ª posição, entre 70 países. Então, são dois países perdidos nos resultados que estão sentando em mesas de parcerias (Teachers College e Fundação Lemann) a convite da Columbia Global Centers, do Centro de Excelência em educação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Fundação Lemann. Desse monte de convites vai resultar que os parceiros vão entrevistar autoridades, que nunca trabalharam com crianças de escolas públicas nesse país e que entendem só de educação, sentados em suas poltronas nos gabinetes.
Isso resultará em mais uma verborréia enganadora. Mas diz a matéria que algumas escolas de três estados, a serem escolhidos ainda, serão acompanhadas. Será que vai ser anunciado um plano de ação e trabalho para esse acompanhamento ou tudo será feito por e-mails, fotos e telefonemas burocráticos? Que coisa!

José Antônio dos Santos
Mestre pela UFSJ
Contato: joseantonio281@hotmail.co


Escrito por Educação, no dia 28/03/2018